John Crosley

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Geraldo Vandré: De rei a trapo em 58 dias


Postado por: Náufrago da Utopia

"Ele foi um rei, e brincou com a sorte
Hoje ele é nada, e retrata a morte
Ele foi um rei, e brincou com a sorte
Hoje ele é nada, e retrata a morte

Ele passou por mim, mudo e entristecido
Eu quis gritar seu nome, não pude
Ele olhou pra parede, disse coisas lindas
Disse um poema pr'um poste, me veio lágrimas

O que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei
O que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei"
("Tributo A Um Rei Esquecido", Benito Di Paula)

Ainda sobre o enigma Geraldo Vandré, eis mais elementos para corroborar minha tese de que, a despeito de tudo que haja sofrido antes de deixar o País do AI-5, sua transformação de rei em trapo se deu na volta para o Brasil, quando a ditadura dele se apossou em 14/07/1973 e só o liberou em 11/09/1973, anunciando então sua chegada como se tivesse acabado de desembarcar.

Eis duas declarações de 2004, em entrevista que Vandré então concedeu a Ricardo Anísio, do Jornal do Norte:
"...eu voltei [do exílio] doente e meio perdido em meu país, quando justamente os militares me acolheram (!) e me deram tratamento médico (!!), e me alojaram (!!!)".

"... havia escrito a canção ["Fabiana"] porque sempre fui um apaixonado por aviões. Agora, a minha relação com as Forças Armadas hoje, é de muito respeito mútuo (!). Eles me tratam com dedicação (!!) e sabem das minhas questões existenciais (!!!)".


Na verdade, Vandré foi mas é internado numa clínica psiquiátrica e, em depoimento que li na internet, uma companheira que também estava lá relatou que ele se encontrava sob vigilância de agentes da ditadura, impedido de falar com os outros pacientes.

Há também referências a uma internação em 1974, numa clínica do bairro de Botafogo (RJ), depois de uma crise de nervos durante a qual teria ameaçado esfaquear a irmã.

Mas é a do ano anterior que realmente importa. Pode-se dizer que se constituiu num divisor de águas. Vandré era um antes e se tornou outro depois.

Vale citar o Timothy Leary, aquele mesmo do LSD, que foi também uma das mais respeitadas autoridades científicas no estudo das lavagens cerebrais:
"O trabalho de lavagem cerebral é relativamente simples, consistindo basicamente na troca de alguns circuitos robóticos por outros. Assim que a vítima passa a encarar o reprogramador como a criança encara seus pais - fornecedores de segurança vital e de apoio para o ego - qualquer nova ideologia pode ser inculcada no cérebro.

"Durante o estágio de vulnerabilidade, qualquer pessoa pode ser convertida a qualquer sistema de valores. Facilmente podemos ser induzidos a entoar 'Hare Krishna, Hare Krishna' como 'Jesus morreu por nós', ou a bradar 'abaixo o Vaticano', aceitando plenamente as ideologias que estão por trás desses temas".
Fragilizado por tudo que sofrera, incluindo problemas com drogas, Vandré pode muito bem ter, naqueles suspeitíssimos 58 dias, sido induzido a bradar "viva a FAB", retratando a morte.

Enquanto não soubermos no que realmente consistiu o tal tratamento médico proporcionado pelos militares quando acolheram e alojaram o Vandré, não poderemos, em sã consciência, descartar a hipótese de lavagem cerebral.

Com a palavra, os jornalistas investigativos e os historiadores

por Celso Lungaretti

Comentário do blog: 
Geraldo Vandré teve a sua alma destroçada de uma forma que jamais poderá ser reconstituída. Basta olhar em seus olhos!
Aos jovens de hoje, que possuem uma idéia distorcida e mentirosa dos acontecimentos do golpe de 1964, fica o alerta de que, mesmo com a anistia, deve-se conhecer e passar a limpo esses anos de horror dos quais o Brasil e outros países da América Latina passaram e que deixaram feridas profundas que nunca foram cicatrizadas.
Isto se faz necessário para calar o clamor de alguns canalhas que recentemente estiveram no Clube Militar do Rio de Janeiro implorando por um golpe.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Carta aberta de juristas em defesa de Lula


Publicada por Vi o Mundo

Carta ao Povo Brasileiro
Em uma democracia, todo poder emana do povo, que o exerce diretamente ou pela mediação de seus representantes eleitos por um processo eleitoral justo e representativo. Em uma democracia, a manifestação do pensamento é livre. Em uma democracia as decisões populares são preservadas por instituições republicanas e isentas como o Judiciário, o Ministério Público, a imprensa livre, os movimentos populares, as organizações da sociedade civil, os sindicatos, dentre outras.

Estes valores democráticos, consagrados na Constituição da República de 1988, foram preservados e consolidados pelo atual governo.

Governo que jamais transigiu com o autoritarismo. Governo que não se deixou seduzir pela popularidade a ponto de macular as instituições democráticas. Governo cujo Presidente deixa seu cargo com 80% de aprovação popular sem tentar alterar casuisticamente a Constituição para buscar um novo mandato. Governo que sempre escolheu para Chefe do Ministério Público Federal o primeiro de uma lista tríplice elaborada pela categoria e não alguém de seu convívio ou conveniência. Governo que estruturou a polícia federal, a Defensoria Pública, que apoiou a criação do Conselho Nacional de Justiça e a ampliação da democratização das instituições judiciais.

Nos últimos anos, com vigor, a liberdade de manifestação de idéias fluiu no País. Não houve um ato sequer do governo que limitasse a expressão do pensamento em sua plenitude.

Não se pode cunhar de autoritário um governo por fazer criticas a setores da imprensa ou a seus adversários, já que a própria crítica é direito de qualquer cidadão, inclusive do Presidente da República.

Estamos às vésperas das eleições para Presidente da República, dentre outros cargos. Eleições que concretizam os preceitos da democracia, sendo salutar que o processo eleitoral conte com a participação de todos.

Mas é lamentável que se queira negar ao Presidente da República o direito de, como cidadão, opinar, apoiar, manifestar-se sobre as próximas eleições. O direito de expressão é sagrado para todos imprensa, oposição, e qualquer cidadão. O Presidente da República, como qualquer cidadão, possui o direito de participar do processo político-eleitoral e, igualmente como qualquer cidadão, encontra-se submetido à jurisdição eleitoral. Não se vêem atentados à Constituição, tampouco às instituições, que exercem com liberdade a plenitude de suas atribuições.

Como disse Goffredo em sua célebre Carta: Ao povo é que compete tomar a decisão política fundamental, que irá determinar os lineamentos da paisagem jurídica que se deseja viver. Deixemos, pois, o povo tomar a decisão dentro de um processo eleitoral legítimo, dentro de um civilizado embate de idéias, sem desqualificações açodadas e superficiais, e com a participação de todos os brasileiros.

ADRIANO PILATTI – Professor da PUC-Rio

AIRTON SEELAENDER – Professor da UFSC

ALESSANDRO OCTAVIANI – Professor da USP

ALEXANDRE DA MAIA – Professor da UFPE

ALYSSON LEANDRO MASCARO – Professor da USP

ARTUR STAMFORD – Professor da UFPE

CELSO ANTONIO BANDEIRA DE MELLO – Professor Emérito da PUC-SP

CEZAR BRITTO – Advogado e ex-Presidente do Conselho Federal da OAB

CELSO SANCHEZ VILARDI – Advogado

CLÁUDIO PEREIRA DE SOUZA NETO – Advogado, Conselheiro Federal da OAB e Professor da UFF

DALMO DE ABREU DALLARI – Professor Emérito da USP

DAVI DE PAIVA COSTA TANGERINO – Professor da UFRJ

DIOGO R. COUTINHO – Professor da USP

ENZO BELLO – Professor da UFF

FÁBIO LEITE – Professor da PUC-Rio

FELIPE SANTA CRUZ – Advogado e Presidente da CAARJ

FERNANDO FACURY SCAFF – Professor da UFPA e da USP

FLÁVIO CROCCE CAETANO – Professor da PUC-SP

FRANCISCO GUIMARAENS – Professor da PUC-Rio

GILBERTO BERCOVICI – Professor Titular da USP

GISELE CITTADINO – Professora da PUC-Rio

GUSTAVO FERREIRA SANTOS – Professor da UFPE e da Universidade Católica de Pernambuco

GUSTAVO JUST – Professor da UFPE

HENRIQUE MAUES – Advogado e ex-Presidente do IAB

HOMERO JUNGER MAFRA – Advogado e Presidente da OAB-ES

IGOR TAMASAUSKAS – Advogado

JARBAS VASCONCELOS – Advogado e Presidente da OAB-PA

JAYME BENVENUTO – Professor e Diretor do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Católica de Pernambuco

JOÃO MAURÍCIO ADEODATO – Professor Titular da UFPE

JOÃO PAULO ALLAIN TEIXEIRA – Professor da UFPE e da Universidade Católica de Pernambuco

JOSÉ DIOGO BASTOS NETO – Advogado e ex-Presidente da Associação dos Advogados de São Paulo

JOSÉ FRANCISCO SIQUEIRA NETO – Professor Titular do Mackenzie

LENIO LUIZ STRECK – Professor Titular da UNISINOS

LUCIANA GRASSANO – Professora e Diretora da Faculdade de Direito da UFPE

LUÍS FERNANDO MASSONETTO – Professor da USP

LUÍS GUILHERME VIEIRA – Advogado

LUIZ ARMANDO BADIN – Advogado, Doutor pela USP e ex-Secretário de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça

LUIZ EDSON FACHIN – Professor Titular da UFPR

MARCELLO OLIVEIRA – Professor da PUC-Rio

MARCELO CATTONI – Professor da UFMG

MARCELO LABANCA – Professor da Universidade Católica de Pernambuco

MÁRCIA NINA BERNARDES – Professora da PUC-Rio

MARCIO THOMAZ BASTOS – Advogado

MARCIO VASCONCELLOS DINIZ – Professor e Vice-Diretor da Faculdade de Direito da UFC

MARCOS CHIAPARINI – Advogado

MARIO DE ANDRADE MACIEIRA – Advogado e Presidente da OAB-MA

MÁRIO G. SCHAPIRO – Mestre e Doutor pela USP e Professor Universitário

MARTONIO MONT’ALVERNE BARRETO LIMA – Procurador-Geral do Município de Fortaleza e Professor da UNIFOR

MILTON JORDÃO – Advogado e Conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária

NEWTON DE MENEZES ALBUQUERQUE – Professor da UFC e da UNIFOR

PAULO DE MENEZES ALBUQUERQUE – Professor da UFC e da UNIFOR

PIERPAOLO CRUZ BOTTINI – Professor da USP

RAYMUNDO JULIANO FEITOSA – Professor da UFPE

REGINA COELI SOARES – Professora da PUC-Rio

RICARDO MARCELO FONSECA – Professor e Diretor da Faculdade de Direito da UFPR

RICARDO PEREIRA LIRA – Professor Emérito da UERJ

ROBERTO CALDAS – Advogado

ROGÉRIO FAVRETO – ex-Secretário da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça

RONALDO CRAMER – Professor da PUC-Rio

SERGIO RENAULT – Advogado e ex-Secretário da Reforma do Judiciário do Ministério da Justiça

SÉRGIO SALOMÃO SHECAIRA – Professor Titular da USP

THULA RAFAELLA PIRES – Professora da PUC-Rio

WADIH NEMER DAMOUS FILHO – Advogado e Presidente da OAB-RJ

WALBER MOURA AGRA – Professor da Universidade Católica de Pernambuco

domingo, 26 de setembro de 2010

Jornal inglês diz que Dilma Rousseff é "Uma líder extraordinária"

Publicado por Carta Maior
O jornal The Independent destacou neste domingo que o Brasil se prepara para eleger no próximo final de semana a "mulher mais poderosa do mundo" e "uma líder extraordinária". As pesquisas mostram que ela construiu uma posição inexpugnável – de mais de 50%, comparado com menos de 30% - sobre o seu rival mais próximo, homem enfadonho de centro, chamado José Serra. Jornal também afirma que candidata tem sofrido ataques em uma campanha impiedosa de degradação patrocinada pela mídia brasileira.
A mulher mais poderosa do mundo começará a andar com as próprias pernas no próximo fim de semana. Forte e vigorosa aos 63 anos, essa ex-líder da resistência a uma ditadura militar (que a torturou) se prepara para conquistar o seu lugar como Presidente do Brasil.

Como chefe de estado, a Presidente Dilma Rousseff irá se tornar mais poderosa que a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel e que a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton: seu país enorme de 200 milhões de pessoas está comemorando seu novo tesouro petrolífero. A taxa de crescimento do Brasil, rivalizando com a China, é algo que a Europa e Washington podem apenas invejar.

Sua ampla vitória prevista para a próxima eleição presidencial será comemorada com encantamento por milhões. Marca a demolição final do “estado de segurança nacional”, um arranjo que os governos conservadores, nos EUA e na Europa uma vez tomaram como seu melhor artifício para limitar a democracia e a reforma. Ele sustenta um status quo corrompido que mantém a imensa maioria na pobreza na América Latina, enquanto favorece seus amigos ricos.

A senhora Rousseff, a filha de um imigrante búlgaro no Brasil e de sua esposa, professora primária, foi beneficiada por ser, de fato, a primeira ministra do imensamente popular Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder sindical. Mas com uma história de determinação e sucesso (que inclui ter se curado de um câncer linfático), essa companheira, mãe e avó será mulher por si mesma. As pesquisas mostram que ela construiu uma posição inexpugnável – de mais de 50%, comparado com menos de 30% - sobre o seu rival mais próximo, homem enfadonho de centro, chamado José Serra. Há pouca dúvida de que ela estará instalada no Palácio Presidencial Alvorada de Brasília, em janeiro.

Assim como o Presidente Jose Mujica do Uruguai, vizinho do Brasil, a senhora Rousseff não se constrange com um passado numa guerrilha urbana, que incluiu o combate a generais e um tempo na cadeia como prisioneira política.

Quando menina, na provinciana cidade de Belo Horizonte, ela diz que sonhava respectivamente em se tornar bailarina, bombeira e uma artista de trapézio. As freiras de sua escola levavam suas turmas para as áreas pobres para mostrá-las a grande desigualdade entre a minoria de classe média e a vasta maioria de pobres. Ela lembra que quando um menino pobre de olhos tristes chegou à porta da casa de sua família ela rasgou uma nota de dinheiro pela metade e dividiu com ele, sem saber que metade de uma nota não tinha valor.

Seu pai, Pedro, morreu quando ela tinha 14 anos, mas a essas alturas ele já tinha apresentado a Dilma os romances de Zola e Dostoiévski. Depois disso, ela e seus irmãos tiveram de batalhar duro com sua mãe para alcançar seus objetivos. Aos 16 anos ela estava na POLOP (Política Operária), um grupo organizado por fora do tradicional Partido Comunista Brasileiro que buscava trazer o socialismo para quem pouco sabia a seu respeito.

Os generais tomaram o poder em 1964 e instauraram um reino de terror para defender o que chamaram “segurança nacional”. Ela se juntou aos grupos radicais secretos que não viam nada de errado em pegar em armas para combater um regime militar ilegítimo. Além de agradarem aos ricos e esmagar sindicatos e classes baixas, os generais censuraram a imprensa, proibindo editores de deixarem espaços vazios nos jornais para mostrar onde as notícias tinham sido suprimidas.

A senhora Rousseff terminou na clandestina VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Nos anos 60 e 70, os membros dessas organizações sequestravam diplomatas estrangeiros para resgatar prisioneiros: um embaixador dos EUA foi trocado por uma dúzia de prisioneiros políticos; um embaixador alemão foi trocado por 40 militantes; um representante suíço, trocado por 70. Eles também balearam torturadores especialistas estrangeiros enviados para treinar os esquadrões da morte dos generais. Embora diga que nunca usou armas, ela chegou a ser capturada e torturada pela polícia secreta na equivalente brasileira de Abu Ghraib, o presídio Tiradentes, em São Paulo. Ela recebeu uma sentença de 25 meses por “subversão” e foi libertada depois de três anos. Hoje ela confessa abertamente ter “querido mudar o mundo”.

Em 1973 ela se mudou para o próspero estado do sul, o Rio Grande do Sul, onde seu segundo marido, um advogado, estava terminando de cumprir sua pena como prisioneiro político (seu primeiro casamento com um jovem militante de esquerda, Claudio Galeno, não sobreviveu às tensões de duas pessoas na correria, em cidades diferentes). Ela voltou à universidade, começou a trabalhar para o governo do estado em 1975, e teve uma filha, Paula.

Em 1986 ela foi nomeada secretária de finanças da cidade de Porto Alegre, a capital do estado, onde seus talentos políticos começaram a florescer. Os anos 1990 foram anos de bons ventos para ela. Em 1993 ela foi nomeada secretária de minas e energia do estado, e impulsionou amplamente o aumento da produção de energia, assegurando que o estado enfrentasse o racionamento de energia de que o resto do país padeceu.

Ela tinha mil quilômetros de novas linhas de energia elétrica, novas barragens e estações de energia térmica construídas, enquanto persuadia os cidadãos a desligarem as luzes sempre que pudessem. Sua estrela política começou a brilhar muito. Mas em 1994, depois de 24 anos juntos, ela se separou do Senhor Araújo, aparentemente de maneira amigável. Ao mesmo tempo ela se voltou à vida acadêmica e política, mas sua tentativa de concluir o doutorado em ciências sociais fracassou em 1998.

Em 2000 ela adquiriu seu espaço com Lula e seu Partido dos Trabalhadores, que se volta sucessivamente para a combinação de crescimento econômico com o ataque à pobreza. Os dois se deram bem imediatamente e ela se tornou sua primeira ministra de energia em 2003. Dois anos depois ele a tornou chefe da casa civil e desde então passou a apostar nela para a sua sucessão. Ela estava ao lado de Lula quando o Brasil encontrou uma vasta camada de petróleo, ajudando o líder que muitos da mídia européia e estadunidense denunciaram uma década atrás como um militante da extrema esquerda a retirar 24 milhões de brasileiros da pobreza. Lula estava com ela em abril do ano passado quando foi diagnosticada com um câncer linfático, uma condição declarada sob controle há um ano. Denúncias recentes de irregularidades financeiras entre membros de sua equipe quando estava no governo não parecem ter abalado a popularidade da candidata.

A Senhora Rousseff provavelmente convidará o Presidente Mujica do Uruguai para sua posse no Ano Novo. O Presidente Evo Morales, da Bolívia, o Presidente Hugo Chávez, da Venezuela e o Presidente Lugo, do Paraguai – outros líderes bem sucedidos da América do Sul que, como ela, têm sofrido ataques de campanhas impiedosas de degradação na mídia ocidental – certamente também estarão lá. Será uma celebração da decência política – e do feminismo.

Tradução: Katarina Peixoto

Barco com grupo judeu tentará entregar ajuda em Gaza

Ativistas judeus afirmam que não querem confronto físico com tropas israelenses
Guila Flint, De Tel Aviv para a BBC Brasil

O barco Irene, uma iniciativa organizada pelo grupo Judeus por Justiça para os Palestinos, zarpou neste domingo do Chipre e leva ajuda humanitária para a população de Faixa de Gaza.

De acordo com os dez viajantes do Irene, todos eles judeus de diversas cidadanias, inclusive israelenses, o objetivo é romper o bloqueio imposto por Israel a 1,5 milhão de palestinos residentes na Faixa de Gaza e protestar contra a ocupação israelense nos territórios palestinos.

Entre os viajantes está o sobrevivente do Holocausto Reuven Moskovitz, de 82 anos.

"Como sobrevivente do Holocausto, o protesto contra a opressão na Faixa de Gaza é sagrado para mim", disse Moskovitz ao site de notícias israelense Ynet. "Na minha idade é bom passar por uma experiência positiva como esta, ao lado de outros humanistas."

O ex-piloto da Força Aérea israelense, Yonatan Shapira, que também está no barco, afirmou que o grupo não tem intenções de se confrontar fisicamente com as tropas israelenses, caso decidam interceptar o barco.

"Mas também não pretendemos ajudá-los a levar o barco para o porto de Ashdod", acrescentou o ex-piloto, se referindo ao porto, no sul de Israel, para o qual a Marinha israelense deverá levar a embarcação, se for interceptada.

Brinquedos e redes

O grupo leva próteses ortopédicas, brinquedos, instrumentos musicais e redes de pesca para a população palestina e calcula que deverá chegar ao porto de Gaza dentro de dois dias.

O israelense Rami Elhanan disse à rádio estatal de Israel que decidiu participar do protesto para "chamar a atenção do mundo para o bloqueio desumano que Israel impõe a mais de um milhão de pessoas".

Elhanan perdeu sua filha, Smadar, em um atentado suicida cometido pelo grupo Hamas, em 1997 em Jerusalém.

Desde então ele tornou-se membro do Grupo das Famílias Enlutadas, formado por famílias israelenses e palestinas que atuam juntas pela paz entre os dois povos.

O cidadão britânico de origem judaica Richard Cooper, que também está a bordo do Irene, disse ao site de notícias Walla que "não são todos os judeus do mundo que apoiam a política do governo de Israel".

De acordo com o Walla, o Exército e a Marinha de Israel estão acompanhando o barco e afirmaram que "estão prontos para qualquer desdobramento".

Bandeira britânica

O barco Irene navega com bandeira britânica e, entre seus tripulantes e viajantes, estão judeus dos Estados Unidos, Grã Bretanha, Alemanha e Israel.

De acordo com a imprensa local, o Irene surpreendeu as autoridades israelenses, que não estavam cientes dos planos do grupo.

A iniciativa do grupo Judeus por Justiça para os Palestinos ocorre quatro meses depois que militares israelenses interceptaram a frota de navios turcos que tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza no último dia 31 de maio, matando nove ativistas e gerando protestos da comunidade internacional.

Segundo um relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU, divulgado na semana passada, naquele incidente os militares israelenses demonstraram um "nível inaceitável de brutalidade".

De acordo com porta-vozes israelenses o objetivo do bloqueio à Faixa de Gaza é impedir a entrada de armas que poderiam ser utilizadas pelo grupo Hamas, que controla a região, para atacar Israel.

sábado, 25 de setembro de 2010

Joni Mitchell - Both Sides Now

América Latina: Os Estado Unidos estão perdendo o controle

Noam Chomsky
Postado por: Fazendo Media
O escritor e filósofo estadunidense Noam Chomsky assinalou que os Estados Unidos estão perdendo o controle no mundo e indicou que a América Latina, região que a nação norteamericana considerou por décadas como “quintal”, está se aproximando da sua independência e da integração.

“Agora estamos em um momento dramático porque os Estados Unidos estão perdendo o controle em todas as partes. O Oriente Médio é o lugar mais importante. Mas a China é outro caso, assim como é o hemisfério ocidental”, indicou Chomsky.

Acrescentou que “sempre se deu por certo que o chamado quintal estaria sob controle. Se você olhar os documentos internos, durante os anos de [ex-presidente estadunidense Richard ] Nixon, quando estavam planejando a derrocada do governo de [Salvador] Allende [ex-presidente chileno derrubado pelo ditador Augusto Pinochet], disseram exatamente que, se não podiam controlar a América Latina, como iriam controlar o resto do mundo”.

“Já não podem controlar a América Latina. De fato, passo a passo, a América Latina, pela primeira vez, está se aproximando da sua independência e da integração”, sublinhou.

Recordou que, em fevereiro, realizou-se a Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe, em Cancún, no México, em que foi aprovado um organismo regional que reúne os países da América Latina e Caribe sem a participação dos Estados Unidos nem Canadá, com o objetivo de integrar a região, isso “foi um tapa” para ambos países norteamericanos.

“Por enquanto, somente é formal. Mas se chega a ser operativo, elimina a OEA [Organização dos Estados Americanos] que é dirigida pelos Estados Unidos. É como se dissessem aos Estados Unidos que se retirem de nossos assuntos. E há outras medidas que estão sendo tomadas. Por exemplo, a China superou os Estados Unidos como importador do Brasil e provavelmente o superará como sócio comercial. É uma grande notícia”, acrescentou.

A seguir, a entrevista na íntegra realizada com o escritor e filósofo estadunidense Noam Chomsky.

Quero começar perguntando-lhe sobre o Irã, os Estados Unidos estão pressionando para que o Conselho de Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas] imponha-lhe sanções mais duras. Até onde vão os Estados Unidos ou Israel, poderiam invadir ou atacar o Irã?

Israel não é previsível. Particularmente, nos últimos dois anos, tem agido de maneira muito irracional, com muita paranóia, em uma situação em que não se pode saber o que vão fazer. Não creio que nem eles saibam o que vão fazer. Estão chegando a um ponto onde podem não ter outra saída a não ser bombardear o Irã. Mas não podem fazer isso sem o apoio dos Estados Unidos. Assim, a pergunta é se os Estados Unidos autorizarão.

Tecnicamente, Israel poderia fazê-lo. Tem submarinos, que conseguiram da Alemanha, com mísseis nucleares profundamente submersos no Golfo Pérsico.

Teoricamente, poderiam atacar ao Irã sem passar pelo espaço aéreo. Mas quase todos os ataques que se podem conceber passariam pelo espaço aéreo de algum país, assim seria difícil o fazerem sem algum tipo de autorização pelo menos tácita. A Turquia não vai consentir. A pergunta é se os Estados Unidos a autorizaria contra o Iraque. E a outra pergunta é a Arábia Saudita. É concebível que tentaria. Eu acredito que seria uma loucura. E os Estados Unidos? [Barack] Obama, que avançou com os programas de [George W.] Bush, junto com seus assessores, também está se metendo em uma situação onde poderia não ter opção. Porque criaram essa ideia de ameaça do Irã. A ilha mais importante é Diogo García, uma ilha africana onde a Grã-Bretanha expulsou todos os habitantes para que os Estados Unidos pudessem construir uma base militar grande, e é uma das bases militares para atacar o Oriente Médio na Ásia Central. E Obama avançou ali. Enviou centenas de artilharia com penetração profunda chamada “rompe-bunkers”, que estão apontados para o Irã. Enviou instalações para apoiar submarinos nucleares com mísseis Tomahawk. Tudo isso representa uma ameaça direta ao Irã. E as sanções estadunidenses estão ficando mais duras. Mas chama a atenção que fora da Europa e do Japão ninguém está prestando muita atenção. Esses países estão de acordo em ser servis aos Estados Unidos.

Não é o caso do resto do mundo. Os países não alinhados, que são a maioria dos países do mundo, têm apoiado fortemente o direito do Irã em enriquecer o urânio. Mas ninguém presta atenção a eles. São as colônias. Mas é cada vez mais difícil de evitá-los. Turquia, o poder regional mais importante, está construindo oleodutos através do Irã. Está aumentando o comércio com o Irã. Opuseram-se às sanções. O Paquistão acaba de abrir oleodutos para o Irã. Mas o que mais preocupa os Estados Unidos é a China. A China simplesmente não presta atenção às ordens dos Estados Unidos. E se acreditam que são o dono do mundo, isso dará medo. De fato, o governo de Obama está desesperado por isso. Apenas há duas semanas, o Departamento de Estado emitiu advertências à China, dizendo que, se querem ser aceitos no mundo civilizado, tem que cumprir com suas responsabilidades internacionais. O que são as responsabilidades internacionais? Seguir as ordens dos Estados Unidos. Obedecer às sanções dos Estados Unidos. Essas sanções não têm nenhuma força, exceto os meios de violência por detrás delas.

A China está satisfeita em obedecer às sanções da ONU [Organização das Nações Unidas] porque são fracas. Os Estados Unidos não podem fazer com que aprovem sanções sérias na ONU. Assim, a China aprova as sanções da ONU e não tem nenhuma responsabilidade de seguir as sanções dos Estados Unidos. O mais provável é que estejam rindo na Chancelaria porque os Estados Unidos não podem fazer nada.

Igual à Rússia, seguem com suas relações econômicas. Estão desenvolvendo suas terras para gás natural etc. É provável que a China esteja de acordo com as sanções dos Estados Unidos porque abre oportunidades a eles. Não tem que competir com empresas dos Estados Unidos e Europa. E as empresas estadunidenses e europeias provavelmente estão furiosas por isso. Mas é uma política de Estado. Isso também está se passando com as manobras navais. A China criticou que os Estados Unidos estejam fazendo manobras navais perto da costa da China. Estavam muito incomodados pelo plano de enviar um porta-aviões nuclear Aircraf avançado, com o nome de George Washington, ao mar Amarelo com capacidade para atacar Pequim [capital da China] com mísseis, segundo os chineses. Aqui nos Estados Unidos não dão importância. Mas nós não reagiríamos dessa forma se a China estivesse realizando manobras no Caribe. De fato, a reação dos Estados Unidos é muito interessante, tanto do governo como da imprensa. A China não está sendo razoável. Estão interferindo na liberdade dos mares, é dizer, nossa liberdade de realizar manobras militares perto de sua costa.

Claro que ninguém tem esse direito, somente nós. E estão possivelmente estão interferindo com nosso desenvolvimento avançado perto da sua costa. Ninguém tem esse direito perto da nossa costa. Todas essas coisas são reflexo de uma ideologia imperialista profundamente arraigada, que diz que é nosso mundo, nós somos os donos e, se alguém interfere com nosso direito de fazer o que queremos, é sua culpa. E quando a China não aceita, a China é considerada uma ameaça. Não seguem ordens e exercem sua própria soberania, e isso não se pode tolerar. E se nos voltarmos para o Irã, é a mesma coisa.

Segunda-feira [13], o Wall Street Journal anunciou que os Estados Unidos estão acelerando seus planos para um enorme envio de armas a Arábia Saudita. Helicópteros, aviões F-15 etc, projetado cuidadosamente para que Israel consiga armas avançadas e a Arábia Saudita consiga as armas inferiores. No entanto, é enorme. Talvez a maior venda de armas na história. Supostamente é para se defender contra o Irã. Mas o que é exatamente a ameaça iraniana? É interesante. Sempre se fala disso.

É considerado, pelos analistas da política externa dos Estados Unidos e pelo governo estadunidense, de ser um problema maior para a ordem mundial. De fato, tem se chamado o ano do Irã porque é um problema tão grande. Assim, qual é a ameaça? Na verdade, temos uma resposta definitiva para isso.

Desgraçadamente os meios não cubrirão isso. A cada ano, o Pentágono e os Serviços de Inteligência nos Estados Unidos entregam informes ao Congresso analisando a situação global de insegurança.

Acabam de fazê-lo em abril passado. Há uma seção sobre o Irã. O que dizem é muito interessante e, por isso, os meios não cobrem. Dizem que o Irã tem gastos militares muito baixos, inclusive em comparação com outros países da região. Portanto não está claro por que a Arábia Saudita necessita de helicópteros e F-15. O Irã não tem praticamente nenhuma capacidade de mobilizar forças no exterior. Sua doutrina militar é puramente defensiva, projetada para postergar uma invasão do Irã por tempo suficiente para permitir a diplomacia.

Os informes afirmam também que se o Irã está desenvolvendo uma capacidade nuclear, que não quer dizer uma arma nuclear necessariamente, seria parte da estratégia de uma força dissuasiva. Necessitam uma força dissuasiva que não é surpreendente porque há dois países em suas fronteiras ocupados por uma superpotência hostil. Israel e Paquistão têm armas nucleares. Assim, estão em uma situação de perigo. Portanto, se supõe que isso seria parte de sua estratégia de uma força dissuasiva, se estão fazendo isso. Assim, qual a ameaça? Os informes explicam a ameaça. A ameaça é que estão exercendo sua soberania. Estão tentando estender sua influência para países vizinhos, como o Afeganistão e o Iraque. E isso não se pode tolerar porque nós somos os donos desses países. Se nós invadimos esses países, está tudo bem. Mas se eles tentam influenciá-los, chama-se de desestabilização. Impomos a estabilidade. É uma terminologia comum. É tão comum que um editor de uma publicação de relações internacionais uma vez escreveu, sobre o golpe de Estado no Chile contra Allende, que desgraçadamente tivemos que desestabilizar o Chile para estabelecer a estabilidade. E não estava se contradizendo porque tivemos que desestabilizar ao depor o governo e impor uma ditadura, e o resultado é estabilidade porque o novo governo segue ordens e sua visão do mundo. Cada artigo do jornal que lê, cada publicação acadêmica sobre as relações internacionais, dão por certa essa perspectiva. É uma perspectiva natural se acredita que é o dono do mundo. E se você olha os documentos internos dos Estados Unidos, têm suas origens há muito tempo, desde a Segunda Guerra Mundial, quando os assessores de Roosevelt se deram conta de que os Estados Unidos saíam de uma guerra com um poder mundial dominante substituindo a Grã-Bretanha. E estabeleceram diretrizes que são explícitas e nunca são discutidas porque são demasiado explícitas. Dizem que os Estados Unidos devem controlar uma vasta área, pelo menos no hemisfério ocidental, o anterior império britânico, que inclui o Oriente Médio, o Extremo Oriente e, talvez mais, e dentro dessa área nenhum país pode exercer sua soberania se interfere com os planos dos Estados Unidos. Os Estados Unidos devem ter poder absoluto.

Professor Chomsky, o império dos Estados Unidos está acabando?

Agora estamos em um momento dramático porque os Estados Unidos estão perdendo o controle em todas as partes. O Oriente Médio é o lugar mais importante. Mas a China é outro caso, assim como é o hemisfério ocidental.

Sempre se deu por certo que o chamado pátio estaria sob controle. Se você olhar os documentos internos, durante os anos de [ex-presidente estadunidense Richard] Nixon, quando estavam planejando a derrocada do governo de [Salvador] Allende [ex-presidente chileno derrubado pelo ditador Augusto Pinochet], disseram exatamente que, se não podiam controlar a América Latina, como iriam controlar o resto do mundo.

Já não podem controlar a América Latina. De fato, passo a passo, a América Latina, pela primeira vez, está se aproximando da sua independência e da integração.

Por enquanto, somente é formal. Mas se chega a ser operativo, elimina a OEA [Organização dos Estados Americanos] que é dirigida pelos Estados Unidos. É como se dissessem aos Estados Unidos que se retirem de nossos assuntos. E há outras medidas que estão sendo tomadas. Por exemplo, a China superou os Estados Unidos como importador do Brasil e provavelmente o superará como sócio comercial. É uma grande notícia.

Professor Chomsky, no caso de Honduras, o golpe de Estado do ano passado. Esse não foi um golpe duro para a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) e uma grande vitória para os Estados Unidos?

A América do Sul avançou em direção à independência e a integração. A Unasul [União de Nações Sul-americanas], por exemplo, não é uma organização somente escrita no papel. Não faz muito, mas se opôs às bases estadunidenses na Colômbia. Apoiou a [presidente boliviano Evo] Morales quando estava sob atraque da velha elite nas províncias do leste.

O Banco do Sul poderia chegar a ter importância e o Mercosul [Mercado Comum do Sul] está se formando. Assim a América do Sul está saindo do controle dos Estados Unidos, o que é muito significativo. Mas a América Central está sob controle até agora. Foi devastada pelas guerras terroristas de [Ronald] Reagan, incluindo Honduras, e apenas está emergindo disso. Porém tem estado disciplinada pelos Estados Unidos.

Com a Nicarágua tem sido um pouco diferente, mas também não tem incomodado muito os Estados Unidos. Honduras é sério. E uma razão é a base de Palmerola. É a única base militar importante que os Estados Unidos têm nessa região. Foi a principal base para atacar a Nicarágua durante a guerra dos Contras. E os Estados Unidos querem mantê-la. E como disse, Honduras é a república bananeira tradicional. Se não podemos mantê-la, estamos com problemas sérios.

Assim, Obama apoiou o golpe de Estado astutamente. Nas palavras, estavam contra, mas nas ações, mostravam que apoiavam. E conseguiram fazer isso. Foi um golpe militar de Estado exitoso. Mas se você fizer uma comparação com o passado, a forma como foi realizado explica muito.

Em anos passados, se os Estados Unidos quisessem apoiar um golpe militar de Estado, simplesmente diriam às Forças Armadas que derrubassem o Governo, e o fariam por si mesmos. Desta vez, se obrigaram a fazê-lo de uma forma mais astuta e indireta que poderia chegar a ser aprovada na Europa.

A Europa é tão obediente aos Estados Unidos. A Europa poderia dizer que não gostou, mas poderia dizer que se manteve dentro da lei, o que por certo não é verdade por certo. Mas não puderam fazer algo assim com o resto do mundo e não puderam fazer como faziam no passado.

São sinais da debilidade crescente dos Estados Unidos, de impor o que chamam de estabilidade no hemisfério. Se fixar nesta década, houve três tentativas de golpe de Estado. O primeiro na Venezuela, apoiado abertamente pelos Estados Unidos, foi revertido. O segundo, no Haiti, os Estados Unidos conseguiram levar a cabo. Estados Unidos, França e Canadá, de fato, levaram a cabo um golpe militar no Hati. Sequestraram o presidente e o enviaram á África Central e baniram seu partido, que ganharia qualquer eleição. Foi um golpe militar de Estado verdadeiro. O Haiti é um Estado fraco, assim puderam fazer isso. E o terceiro foi em Honduras.

São três em uma década. Mas não tem nada a ver com a época em que os Estados Unidos podiam derrubar governos à vontade.

Nada a ver, por exemplo, com John F. Kennedy, que pôde organizar um golpe militar de Estado no Brasil, que ocorreu justamente depois de seu assassinato, mas foi organizado pelos Kennedy. O Brasil é um país grande, não é um lugar pequeno, e não foi um grande problema. Instalaram um de seus primeiro países assassinos de segurança nacional que depois se estendeu como uma praga por todo o continente.

Esses dias acabaram. E está causando muita preocupação entre os formadores da política externa dos Estados Unidos. Inclusive um país tão poderoso como os Estados Unidos já não podem manter o tipo de dominação mundial que foi projetada depois da Segunda Guerra Mundial e implementá-la em grande medida.

Professor Chomsky, você escreveu um livro muito importante há 20 anos sobre a fabricação do consenso feito por grandes meios comerciais. A capacidade dessas empresas de controlar o pensamento das pessoas mudou nesse período?

Tomamos os exemplos da Telesur, RT, Press TV ou Al-Jazeera, que é o maior. Vemos um exemplo real, como a invasão israelense a Gaza, que foi uma invasão israelense e estadunidense a Gaza porque os Estados Unidos participaram plenamente. Foi possível conseguir uma cobertura ao vivo 24 horas de Gaza da Al Jazeera. E havia dois povos nos Estados Unidos de onde se poderia ver. Um está em Michigan [centro-norte] onde há uma grande população árabe e outro é um pequeno povo no norte de Nova Hampshire.

No resto do mundo, foi possível ver a cobertura 24 horas do evento mais importante desse período. Nos Estados Unidos, foi proibido. Se por acaso estivesse nesses povos, poderia ver pela televisão a cabo. Se foi suficientemente inteligente para encontrar pela internet, podia encontrar pela internet. Mas quanto ao impacto sobre a população, teve mais êxito sobre os que viviam na União Soviética. Havia muito mais gente escutando a BBC na União Soviética, escutando fontes no exterior.

Um grande número estava conseguindo suas notícias da BBC e pela Voz da América. Sabemos isso por estudos que foram realizados. Aqui está essa voz alternativa, e se sabe o que busca e faz um esforço, pode encontrar. Isso é bom, porém só alguns aproveitam.

A internet tem muito valor se você sabe o que está fazendo. Mas para a maioria da população, é como se você quisesse ser biólogo e eu diga que vá a bibliotecas de Harvard e leia todas as revistas sobre biologia. Não vai aprender nada. Estão ali. No entanto, tem que saber o que está buscando. E as pessoas nos Estados Unidos não sabem porque tem havido uma campanha extremamente exitosa, especialmente nos últimos 20 anos, de fragmentação para as pessoas, subordinando-as.

Professor Chomsky e a mudança climática, a possibilidade de uma guerra nuclear, a crise alimentar, os desastres naturais, nesse sentido o mundo é assustador. Você tem esperança?

O mais surpreendente é que quase não há uma forma de abordar a mudança climática com as instituições já existentes. Os Estados Unidos realmente não têm um sistema de mercados, nenhum país poderia sobreviver com um sistema de mercados. Mas têm um sistema de mercados parcial. E na medida em que funciona um sistema de mercados, você perdeu. Se você é executivo de uma empresa, está obrigado por lei a maximizar as ganâncias em curto prazo e ignorar as externalidades, por exemplo, o destino da espécie humana.

Não faz isso porque é uma pessoa má, talvez lhe importe o destino da espécie. Mas não pode importar em teus negócios. Se você decide ser uma pessoa decente, está fora, e se incorpora outra pessoa que vai fazer o que se requer institucionalmente. O efeito nos Estados Unidos é que há campanhas de propaganda importantes dirigidas a um mundo dos negócios que tentam convencer as pessoas a esquecer. O que não está se passando, o que os humanos não têm que ver, o que seja. É uma sentença de morte.

E as mesmas pessoas que estão fazendo essa campanha sabem bem disso. Sabem igualmente como eu, você e outros que é muito sério. Mas estão presos. Estão nessa estrutura institucional e não podem sair. E isso é sério. Se você vê o mundo, há duas trajetórias. Há a trajetória que está sendo perseguida, lentamente, irregular, de que na América Latina há mais independência em direção aos horríveis problemas internos da pobreza massiva e o sofrimento e a desigualdade. Há passos tímidos para essa direção. É uma trajetória positiva. Há outra trajetória que conduz à destruição. A mudança climática é um caso. A guerra nuclear é outro. E há outros. A pergunta é qual trajetória acabará dominando. Não tem sentido especular.

(*) Entrevista publicada originalmente pela Telesur, e reproduzida no Brasil de Fato. Tradução: Patrícia Benvenuti

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Over the Rainbow - Israel Kamakawiwo'ole



Israel Ka‘ano‘i Kamakawiwo'ole (pronúncia IPA [kamakaʋiwoˈʔole]; Honolulu, 20 de Maio de 1959 - Honolulu, 26 de Junho de 1997) foi um cantor americano, muito popular no seu estado de nascimento, o Havaí. Kamakawiwo'ole, que usava também o nome "Braddah IZ", era famoso em sua terra natal não só pela música mas pelas suas raízes; era descendente de uma linhagem pura de nativos havaianos. Nunca ocultou a sua posição a favor da independência do Havai e de defesa dos direitos dos nativos.

Ao longo da sua carreira musical, Iz debateu-se com muitos problemas de saúde relacionados com o seu peso excessivo chegando a pesar 343 kg, para um corpo com 1,88 m. Aos 38 anos, faleceu devido a problemas respiratórios causados pela obesidade mórbida.
Fonte: Wikipédia

Lições de Manipulação - NBC



Postado por: Tijolaço

Michael Moore e a liberdade de imprensa na NBC

Na hora em que discutimos liberdade de informação, é bem interessante ver este filmete, feito pela TV cubana, sobre uma entrevista do cineasta Michael Moore ao programa de TV norteamericano Democracy Now! sobre o seu documentário Sicko, que trata do sistema de saúde americano – não à toa a principal bandeira eleitoral de Barack Obama.
Está legendado em espanhol, na parte em inglês mas, na parte narrada em espanhol, para não haver dificuldade para ninguém, eu resumo:
Ele conta que três equipes de TV em hospitais de pronto-socorro em Fort Lauderdale, nos EUA, em Toronto, Canadá e em Havana, Cuba, esperando chegar alguém com um braço ou uma perna quebrados e acompanhar o atendimento, para ver qual era o mais rápido, o melhor e o mais barato.
Moore diz que o hospital cubano venceu, mas que uma diretora da NBC disse que ele não poderia dizer isso. Era contra “as regras da empresa”. Ele se recusou a mudar o resultado, mas dois dias depois…Bem, assista o vídeo…

Dep. Brizola Neto

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O nascimento de uma nação racista

Latuf
Postado por Cidadã do Mundo


Israel: um defeito de fabricação
O verdadeiro vencedor da II Guerra Mundial não foi a aliança de nações que combateu a Alemanha nazista, nem mesmo esses EUA robustecidos pela debilitação da Europa e muito menos, desde logo, os milhões de vítimas judias do nazismo: o verdadeiro vencedor da II Guerra Mundial foi o movimento sionista fundado por Theodor Herzl em 1897.

Por isso mesmo, o verdadeiro perdedor do conflito bélico não foi a Alemanha nem o Japão, nem a Itália, nem mesmo a essa URSS condenada a desaparecer 40 anos mais tarde: o verdadeiro perdedor, em conjunto com os milhões de vítimas do holocausto nazista, foi o povo palestino, radicalmente inocente e completamente alheio ao mesmo tempo ao anti-semitismo europeu e às suas lutas interimperialistas. Ignominiosa combinação de interesses espúrios e má consciência, a injustíssima resolução 181 da ONU que em 1947 decidiu a repartição da Palestina conserva hoje toda a sua atualidade destrutiva. Marek Edelman, heróico defensor do gueto de Varsóvia em 1943, soube ver muito bem os motivos: “Se Israel foi criado isso foi graças a um acordo entre a Grã-Bretanha, Estados Unidos e a URSS. Não para expiar os seis milhões de judeus assassinados pela Europa, mas par repartir os negócios do Médio Oriente”. Hoje, todos nós podemos ver os resultados: através dessa pequena ferida está a esvair-se em sangue irremediavelmente o mundo.

O Congresso de Basiléia, ato fundacional do sionismo, foi cedo denunciado por Karl Kraus, judeu universal de Viena, como uma forma de anti-semitismo: “Estas duas forças aspirariam secretamente a uma aliança”, pois “o seu objetivo é, de fato, comum: expulsar os judeus da Europa”. O essencialismo étnico-religioso de Theodor Herzl, em qualquer caso, só persuadiu uma diminuta minoria, como o demonstra o fato de apenas uns poucos milhares de sionistas terem emigrado para a Palestina antes de 1933. Só a convergência de três fatores exteriores à história da região explica a presença de 600.000 judeus no momento da repartição. O primeiro foi a perseguição nazista, que obrigou à fuga de milhões de judeus tanto da Alemanha como das zonas por ela ocupadas. O segundo, a inescrupulosa exploração deste genocídio por parte da organização sionista, mais preocupada em colonizar a Palestina do que em salvar seres humanos: “Se me dessem a possibilidade”, declarou Ben Gurión em 1938, “de salvar todas as crianças judias da Alemanha levando-as para Inglaterra ou salvar só metade transportando-as para Eretz - Israel, optaria pela segunda alternativa”. O terceiro, a cobiça imperialista de Inglaterra, que a partir da declaração Balfour (1917) e mediante uma maquiavélica política migratória soube interpretar a seu favor todas as vantagens da proposta racista de Herzl: “Para a Europa construiremos aí (na Palestina) um pedaço de muralha contra a Ásia, seremos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie”.

Repartição e expansão

Contrariamente ao que julgamos saber, não apenas a justiça palestina se opôs ao princípio da repartição, como também a injustiça sionista. Em 1948, Menahem Beguin, dirigente do grupo terrorista Irgún e futuro prêmio Nobel da Paz, declarava que “a repartição não privará Israel do resto dos territórios”. A 19 de Março desse mesmo ano Ben Gurión, chefe da Haganah e pai-fundador de Israel, insistia em que “o Estado judeu não dependerá da política da ONU mas sim da nossa força militar”. Essa força militar, articulada no plano Dalet, expulsou das suas terras, mediante o terror e a violência, 800.000 palestinos, numa operação de limpeza étnica a grande escala cuja envergadura e objetivo foram claramente expostos pelo historiador israelense Benny Morris (um ultra-sionista que só lamenta, ainda por cima, que Ben Gurión não tivesse sido ainda mais radical). Dessa maneira, a 18 de Maio de 1948 foi criado, sobre 77% do território palestino, o “único Estado democrático” do Médio Oriente, um Estado “judeu” cuja “constituição” é a conhecida Lei do Retorno de 1950. É ela, e não a decência nem a razão nem a história, a que permite o “regresso” à Palestina de qualquer “judeu” do mundo, a partir de uma ambígua definição racial/religiosa que abarca os descendentes de pais ou avós judeus e os convertidos à religião de Moisés (mas exclui os que mudam de credo e os que questionam o caráter “judeu” do Estado de Israel).
Expulsão. A 11 de Julho de 1948, o Exército israelense obrigou a partida dos 19.000 habitantes de Lydda e dos mais de 20.000 palestinos que se tinham refugiado lá. Hoje Lydda chama-se Lod e só 20% da sua população é árabe. 418 povoações ficaram vazias.
Cada vez que Israel bombardeia cidades, levanta muros, derruba oliveiras ou impõe a fome e a doença a milhões de seres humanos, os EUA e a UE, se por vezes lamentam “o desproporcionado uso da força”, lembram uma e outra vez o seu direito a se defenderem. Que ninguém se escandalize se eu disser que é absurdo invocar o seu direito à defesa quando o que está em causa é o seu direito à existência. Cada vez que os EUA e a UE promovem alguma ‘iniciativa de paz’ discute-se sobre o que fazer com os palestinos e o que conceder aos palestinos, como se os intrusos e ocupantes fossem eles. Que ninguém se escandalize se eu disser que a verdadeira questão é saber o que fazemos com os israelenses e o que concedemos aos israelenses. Não pode haver justiça se não se parte de princípios justos e é necessário, portanto, investir nesses princípios que nos parecem absurdamente naturais de alcançar, não já a justiça, mas uma solução minimamente injusta. Estou seguro de que o pragmatismo e a piedade levariam os palestinos a serem generosos com os israelenses se o mundo declarasse publicamente de que lado está a razão e agisse em conseqüência. Mas enquanto os EUA e a UE, únicas chaves do conflito, apoiarem política, econômica e militarmente os direitos do racismo, do fanatismo, do nacionalismo messiânico e a violência colonial, a humanidade continuará a desgraçar-se sem remédio através dessa ferida aberta na Palestina.

Nota de Diagonal: O problema dos refugiados
Depois das expulsões de 800.000 palestinos em 1948, 350.000 em 1967 e do constante fluxo de palestinos que saíram e continuam a sair do país nos últimos 60 anos, o número de refugiados ascende a uns seis milhões. Mais de quatro vivem nos Territórios Ocupados, Jordânia, Líbano e Síria. Mais de um milhão vive em acampamentos de refugiados. E mais de 250.000 são deslocados internos em Israel, os conhecidos como “presentes ausentes”. O regresso dos refugiados, ponto-chave na resolução do conflito e com o apoio da resolução 194 da ONU, é completamente repudiado por Israel.

Texto de Santiago Alba Rico, Diagonal. Tradução de Alexandre Leite para a Tlaxcala.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

11th September - 09/11/2001



Postado por: Com Texto Livre
Este vídeo mostra os métodos utilizados pelos "defensores da democracia" para desestabilizar, assassinar e subjugar.
Mostra o papel dos militares covardes, pusilânimes e traidores, na história da América Latina.
11 diretores foram convidados para fazer um filme sobre a queda das torres gêmeas em 11 de setembro.
Essa é a brilhante contribuição de Ken Loach que traça um paralelo com um outro 11 de setembro, aquele de 1973 no Chile.

Blackwater & Co. - A “negabilidade [1] total”

Foto da fachada da sede da Blackwater
Postado por Rede Castor Photo
Jeremy Scahill, The Nation em: Blackwater's Black Ops
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Ver também "Empresário, soldado e espião" , 27/6/2010, em português.
(de Vanity Fair, 27/6/2010) e
"Cowboy Contractors: Armed and Dangerous" , Guardian, 21/9/2010 (em inglês)

Ao longo dos últimos anos, entidades muito intimamente ligadas à empresa de segurança Blackwater têm prestado serviços de inteligência, treinamento e segurança aos EUA e outros governos, e também a várias corporações multinacionais, dentre as quais a Monsanto, a Chevron, a Walt Disney Company, as Royal Caribbean Cruise Lines e a bancos gigantes como o Deutsche Bank e o Barclays, segundo documentos obtidos por The Nation.

O trabalho da empresa Blackwater para empresas e agências governamentais foi contratado através de duas empresas que pertencem ao fundador e proprietário da Blackwater, Erik Prince: as empresas Total Intelligence Solutions e o Centro de Pesquisas sobre Terrorismo [ing. Terrorism Research Center (TRC)]. Prince aparece como presidente de ambas em documentos internos das empresas, o que mostra que as empresas funcionam em rede, com conexões altamente coordenadas. Funcionários da Total Intelligence, do TRC e da Blackwater (que trocou de nome recentemente para Xe Services), procurados várias vezes para comentar esse artigo, não responderam.

Um dos detalhes mais incendiários daqueles documentos é que a Blackwater, através da empresa Total Intelligence, trabalhou para converter-se em “braço de inteligência” da empresa Monsanto, tendo-se oferecido para fornecer agentes a serem infiltrados nos grupos de ativismo contra a multinacional de biotecnologia.

Dentre os consumidores governamentais de serviços de inteligência e de treinamento antiterrorismo fornecidos pelas empresas de Prince, citam-se o Reino da Jordânia, o exército do Canadá, a polícia holandesa e várias bases militares dos EUA, como o Fort Bragg, sede do Comando Unificado das Operações Especiais [ing. Joint Special Operations Command (JSOC), e o Fort Huachuca, onde são treinados os interrogadores militares, segundo os mesmos documentos. Além disso, a Blackwater trabalhou através de suas subempresas para a Agência de Inteligência da Defesa, a Agência de Redução de Riscos da Defesa e o Comando Militar dos EUA na Europa.

Dia 3/9, o New York Times noticiou que a Blackwater “criou uma rede de mais de 30 empresas coligadas ou subsidiárias em parte para obter milhões de dólares em contratos com o governo dos EUA, depois de a empresa-mãe ter-se tornado alvo de fortes críticas por má conduta no Iraque.”

Documentos aos quais The Nation teve acesso revelam detalhes ainda inéditos de várias dessas empresas e abrem uma rara brecha pela qual se pode afinal começar a conhecer as muito sensíveis operações de segurança e inteligência que a Blackwater realiza para várias poderosas comporações e agências governamentais. Os novos fatos também lançam luz sobre o papel chave que desempenham no processo vários ex altos funcionários da CIA, que se desligaram da agência e passaram a trabalhar para a Blackwater.

O coordenador dos negócios secretos entre a Blackwater e a CIA, ex oficial paramilitar da Agência Enrique "Ric" Prado, construiu uma rede global de agentes estrangeiros, que lhe garante “negabilidade total” [ing. total deniability], oferecida como vantagem extra aos potenciais clientes da Blackwater – segundo documentos da própria empresa.

A CIA sempre usou forças locais em ações extralegais ou para encobrir o envolvimento do governo dos EUA em operações que tivessem de ser mantidas à margem de qualquer escrutínio da lei. Em alguns casos, essas forças locais “com alta negabilidade” sequer souberam para quem trabalhavam. Prado e Prince construíram uma dessas redes de estrangeiros durante o tempo que a Blackwater esteve no centro do programa de “assassinatos seletivos” da CIA, iniciado em 2004. Treinaram unidades especializadas em caçar suspeitos de terrorismo numa das propriedades de Prince na Virginia, para operar em plano global, quase sempre em operações conjuntas com agentes locais. Ex alto funcionário da CIA declarou que uma das vantagens de usar agentes estrangeiros contratados pela Blackwater naquele tipo de operação seria que “ninguém gostaria de encontrar por lá impressões digitais de norte-americanos”.

Apesar de a rede ter sido originalmente estabelecida para ser usada em operações da CIA, os documentos aos quais The Nation teve acesso mostram que Prado a considerou comercialmente valiosa também para outras agências do governo.

Em e-mail enviado em outubro de 2007, em cuja linha de Assunto lê-se “Possível Oportunidade no DEA – Leia e Delete”, Prado escreveu a um executivo da empresa Total Intelligence, com informações para uma possível ‘entrada’ no Drug Enforcement Administration [agência de Saúde Pública e Controle de Medicamentos e Fármacos dos EUA]. O destinatário do e-mail era ex-funcionário, com 18 anos de trabalho na DEA e vasta rede de conexões dentro do governo, que acabava de ser admitido como executivo da empresa Total Intelligence. Prado explicava que a Blackwater tinha já constituída “uma rede global, em rápida expansão, de gente competente para qualquer tipo de serviço, de segurança em campo a boicote de operações em andamento”. E acrescentava: "São todos agentes locais [não norte-americanos], exceto alguns poucos (que são cidadãos norte-americanos no comando da operação, mas nunca vistos pelas ruas), de tal modo que já temos capacidade de negabilidade total, o que deve ser apresentado como plus valioso.”

O executivo respondeu a mensagem, sugerindo que “poderia haver interesse” nesses serviços; e sugeriu que “um dos melhores locais para começar pode ser a Divisão de Operações Especiais [ing. Special Operations Division, SOD], localizada em Chantilly, VA”, e deu o nome do agente especial a ser contatado. A divisão SOD é um comando secreto dentro do Departamento de Justiça dirigido pelo DEA. Opera como centro de comando e controle para algumas das operações mais sensíveis da luta antinarcóticos conduzidas pelo governo dos EUA. O executivo também disse a Prado que os attachés das embaixadas dos EUA no México, Bogotá, Colômbia, Bangkok, Tailândia, provavelmente também se interessariam em trabalhar com a rede de Prado. Não está ainda confirmado se essa rede foi efetivamente usada, nem quem a teria usado. Ex-empregado da Blackwater, que trabalhou no programa da empresa para a CIA recusou-se a comentar o trabalho de Prado na Blackwater, alegando que seria informação sigilosa.

Em novembro de 2007, empregados das empresas de Prince desenvolveram uma cara estrutura de serviços (e preços) de segurança e inteligência a ser oferecida a empresas privadas e milionários. Um empregado escreveu que Prado tinha capacidade para “desenvolver infraestruturas” e “comandar atividades em campo e de segurança”. Segundo aquela “estrutura de serviços”, os clientes poderiam contratar Prado e outros empregados da Blackwater para operar nos EUA e em qualquer lugar do mundo: na América Latina, no norte da África, em países francófonos, no Oriente Médio, Europa, China, Rússia, Japão e sudeste da Ásia. Uma equipe de quatro membros chefiada por Prado para serviços de contravigilância nos EUA custa $33.600 por semana; “casas seguras” podem ser preparadas por $250 mil dólares, mais custos operacionais.

E os mesmos serviços poderiam ser fornecidos em qualquer lugar do mundo.

Por $5.000 por dia, os clientes poderiam contratar Prado ou outros dois ex-funcionários da CIA Cofer Black e Robert Richer para serviços de “representação” junto a “decisores” nacionais. Antes de trabalhar para a Blackwater, Black, veterano da CIA, com 28 anos de serviço, dirigiu o centro de contraterrorismo da agência; e Richer foi vice-diretor de operações. (Nem Black nem Richer trabalham atualmente na Blackwater).

Quando a Blackwater viu-se no foco da mídia, logo depois do massacre da Praça Nisour [2], Prado criou sua própria empresa, Constellation Consulting Group (CCG), ao que se sabe, levando consigo algumas das operações clandestinas da Blackwater com a CIA, embora se saiba também que continuou a manter laços íntimos com o ex-empregador. Em e-mail para um executivo da Total Intelligence, em fevereiro de 2008, Prado escreveu que “tivemos recentemente importantes sucessos no desenvolvimento de capacidades no Mali [África] que são de extremo interesse para nosso principal patrocinador e que em breve permitirão desencadear esforço substancial via a minha lojinha”; e pediu auxílio à equipe da Total Intelligence, para a análise “do problema do terrorismo no Norte do Mali/Nigéria”.

Em outubro de 2009, executivos da Blackwater enfrentaram uma crise, quando não conseguiram localizar uma Unidade de Telefone Seguro que funcionava na empresa, apesar de ser instrumento de uso exclusivo do governo dos EUA, usado pela CIA, pela Agência de Segurança Nacional e por outros serviços militares e de inteligência para comunicações sigilosas. Uma onda de e-mails voou em todas as direções das várias empresas do grupo Blackwater, para tentar localizar o aparelho. Um ex-funcionário da Blackwater respondeu que, dado que já deixara a empresa, “não é, de fato, problema meu”. Outro respondeu que “não tenho cachorro nessa briga”. Afinal, Prado interveio e distribuiu e-mails com ordens de “digam ao pessoal da OGA POC” – sigla, em inglês, para “Ponto de Contato da Outra Agência (= CIA) do Governo” [ing. Other Government Agency Point Of Contact].

Não se sabe que relacionamento há entre a empresa de CCG de Prado e a CIA. Texto inicialmente exibido na página da empresa na internet dizia que “os profissionais da CCG já comandaram operações em cinco continentes e provaram sua capacidade para atender às necessidades dos clientes mais exigentes”; dizia também que a empresa “tem competência para administrar contratos altamente secretos”. A CCG, lia-se naquele website, “está em posição única para fornecer serviços que nenhuma outra empresa oferece, e pode apresentar resultados obtidos nas áreas mais remotas e conseguidos com pouco ou nenhum auxílio externo.” Dentre os serviços anunciados estavam “Inteligência e Contrainteligência (humana e eletrônica), Operações Militares Não convencionais, Operações Antidrogas, Serviços de Aviação, Inteligência Competitiva, Acesso a Áreas Restritas (...) e Treinamento Paramilitar”.

The Nation já noticiou operações da Blackwater para a CIA e o Alto Comando Militar dos EUA no Paquistão. Novos documentos revelam uma longa história de atividades da Blachwater no Paquistão. A ex-primeira-ministra do Paquistão Benazir Bhutto havia contratado serviços da empresa quando voltou ao Paquistão para a campanha eleitoral de 2008, segundo esses novos documentos. Em outubro de 2007, quando surgiram na imprensa notícias de que Bhutto contratara “segurança norte-americana”, Robert Richer, alto dirigente da Blackwater, escreveu aos executivos da empresa: “Temos de cuidar disso de vários ângulos. Se nosso nome aparecer, a reação da imprensa no Paquistão será considerável. E ainda teremos de avaliar as consequências no mundo muçulmano”. Richer escreveu que “temos de nos preparar para um comunicado de algum afiliado da Al-Qaida caso nosso nome apareça. Isso terá impacto no perfil de segurança.” Falta alguma palavra no texto do e-mail ou houve algum erro de digitação que não deixa claro, na mensagem, o que Richer queria dizer na referência a um comunicado da Al-Qaeda. Dois meses depois, Bhutto foi assassinada. Os dirigentes da Blackwater agendaram depois uma reunião com representantes da família Bhutto em Washington, em janeiro de 2008.

Durante um breve momento, pareceu que a abundância de evidências de assassinatos de civis, de encobrimento de ações militares e a ausência absoluta de transparência denunciados em documentos vazados pela página Wikileaks levariam a inquérito sério sobre a conduta dos norte-americanos no Afeganistão.

Através das empresas Total Intelligence e do Centro de Pesquisa sobre Terrorismo, a Blackwater também manteve negócos com grande número de corporações multinacionais. Segundo as comunicações internas da empresa Total Intelligence, a gigante de biotecnologia Monsanto – maior fornecedor mundial de sementes geneticamente modificadas – contratou a empresa em 2008-09. O relacionamento entre as empresas parece ter-se oficializado em janeiro de 2008, quando o presidente da Total Intelligence Cofer Black viajou a Zurique para encontrar-se com Kevin Wilson, gerente de segurança da Monsanto para questões globais.

Depois do encontro em Zurique, Black escreveu e-mails a outros executivos da Blackwater, inclusive a Prince e Prado, mensagens enviadas para os endereços de correio eletrônico da Blackwater. Black escreveu que Wilson “entende que podemos oferecer o que ele procura, legalmente, para proteger a marca Monsanto (...).” Black acrescentou que Total Intelligence “vai-se desenvolver como braço de inteligência da Monsanto”. E observou também que a Monsanto preocupava-se com ativistas da proteção aos animais, e que os dois haviam também discutido sobre como a Blackwater “poderia infiltrar gente para atuar legalmente nos grupos ativistas”. Black escreveu que os pagamentos iniciais à Total Intelligence sairiam do “generoso orçamento de cobertura” da Monsanto, mas adiante poderiam tornar-se rubrica permanente do orçamento anual da companhia. Estimou que o total do que a Total Intelligence receberia ficaria entre $100.000 e $500.000. Segundo os documentos, a Monsanto pagou à Total Intelligence $127.000 em 2008 e $105.000 em 2009.

Procurado por telefone e perguntado sobre o encontro com Black em Zurich, Wilson da Monsanto disse, inicialmente, que “Não vou discutir o assunto com você”. Depois, em e-mail ao jornal The Nation, Wilson confirmou que se encontrou com Black em Zurique, e que a Monsanto contratou a Total Intelligence em 2008 e continuou trabalhando com a empresa até o início de 2010. Negou que tivesse discutido com Black a infiltração de agentes nos grupos de defesa dos animais; disse que “essa discussão jamais aconteceu”. Disse também que a Total Intelligence só forneceu à Monsanto “informes sobre as atividades de grupos ou indivíduos que representavam risco para os empregados ou para operações da Monsanto em todo o mundo; para obter esses informes, a Total Intelligence monitorava a mídia local e outras fontes públicas de dados. As informações cobriam desde incidentes de terrorismo na Ásia ou sequestros na América Central, até o conteúdo escaneado de blogs de ativistas e websites”. Wilson afirmou que Black lhe dissera que a empresa Total Intelligence era “empresa completamente separada da Blackwater.”

A Monsanto não foi a única grande corporação a contratar os serviços da constelação de empresas que formam a Blackwater. A Walt Disney Company contratou a Total Intelligence e a TRC para fazer uma “valiação de ameaças” que pesariam contra uma locação que estava em estudos para uma produção a ser filmada no Marrocos; em função desse contrato, os dois ex-CIA, Black e Richer, acionaram seus ex-contatos marroquinos em busca de informação. O trabalho seria “boa chance de impressionar a Disney”, escreveu um executivo da empresa. Não se sabe se a Disney ficou ou não muito impressionada; em 2009, a empresa pagou à Total Intelligence apenas $24.000.

A Total Intelligence e a TRC também prestaram assessoramento de inteligência sobre a China ao Deutsche Bank. “A ameaça representada pela contrainteligência técnica chinesa é das mais altas do mundo”, escreveu um analista da TRC, e acrescentou: “Muitos quartos de hotéis de quatro e cinco estrelas e restaurantes são monitorados 24 horas/dia com vídeo e áudio” pela inteligência chinesa. Disse também que computadores, PDAs [ing. Personal digital assistant] e dispositivos eletrônicos em geral deixados em quartos de hotéis corriam o risco de ser clonados. Telefones celulares que se servissem de redes chinesas, escreveu o analista, podiam ter microfones ativados remotamente, o que os converteria em aparelhos de escuta permanente. Concluiu que os representantes do Deutsche Bank “não deveriam trazer qualquer equipamento eletrônico para a China”. Sobre agentes femininas chinesas, o analista escreveu que “se você, no seu país de origem, não é do tipo que atrai mulheres por onde passa, desconfie se, na China, as mulheres se mostrarem muito interessadas”. Por esses e outros serviços, o banco pagou à empresa Total Intelligence $70.000, em 2009.

A TRC também vasculhou a vida passada de empresários líbios e sauditas para o Banco Barclays, gigante inglês. Em fevereiro de 2008, um executivo da TRC escreveu por e-mail para Prado e Richer revelando que o banco Barclays encomendara à TRC e à Total Intelligence levantamento sobre o passado dos principais executivos do Grupo Binladin Saudita [ing. Saudi Binladin Group (SBG)] e sobre possíveis “associações/conexões com Osama bin Ladin.” Nesse relatório, Richer escreveu que o presidente do SBG, Bakr Mohammed bin Laden, “tem boa reputação nos serviços de inteligência árabe e também ocidental” por ter cooperado na caçada a Osama bin Laden. Outro executivo do SBG, Sheikh Saleh bin Laden, é descrito por Richer como “empresário muito inteligente”, conhecido por “operar com plena transparência para os serviços sauditas de inteligência” e considerado “o mais veemente de toda a família estendida BL, nas críticas às ações e crenças de UBL”.

Em agosto, a Blackwater e o Departamento de Estado decidiram por acordo de 42 milhões, um processo por centenas de violações das leis norte-americanas de controle de exportações. Dentre as violações citadas estava a exportação não autorizada de dados técnicos para o exército canadense. Simultaneamente, os negócios entre a Blackwater e funcionários da Jordânia também geraram processo por crime federal contra cinco ex altos executivos da Blackwater. O governo da Jordânia pagou à Total Intelligence mais de $1,6 milhão, em 2009.

Parte do treinamento que a Blackwater/TRC ofereceu a militares canadenses foi feito no curso “Mirror Image” [imagem-espelho], curso de imersão, no qual os agentes em treinamento vivem num simulacro de célula da Al-Qaeda, com o objetivo de entender o pensamento e a cultura dos guerrilheiros. Literatura distribuída pela companhia descreve o treinamento como “programa de treinamento em classe e em campo, construído para simular as técnicas de recrutamento e treinamento dos terroristas, e suas táticas operacionais”. Documentos aos quais The Nation teve acesso mostram que, em março de 2009, a Blackwater/TRC gastou $6.500 na compra de roupas nas tribos locais no Afeganistão, além de sortido “material de propaganda – pôsteres, mapas do Paquistão etc.” para o curso “Mirror Image”, e mais $9.500 em material semelhante, em janeiro passado, no Paquistão e no Afeganistão.

Segundo documentos internos, só em 2009 o exército do Canadá pagou à Blackwater mais de $1,6 milhão através da TRC. Um oficial do exército canadense elogiou o programa, em carta enviada ao centro, dizendo que “ofereceu aos nossos soldados rara e válida consciência social e treinamento específico para missões no Afeganistão,”; e acrescentou que “foi programa de treinamento muito efetivo e operacionalmente atualizado, benéfico para nossa missão”.

No verão passado, Erik Prince pos a Blackwater à venda e mudou-se para Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Mas não parece estar abandonando o sombrio mundo da segurança & inteligência. Diz que se mudou para Abu Dhabi por causa da “grande proximidade com oportunidades potenciais em todo o Oriente Médio, e excelente logística”, além “de um clima amigável para negócios, impostos baixos ou inexistentes, livre comércio e nada de advogados incontroláveis e sindicatos”.

Os Emirados Árabes, além do mais, não têm tratado de extradição com os EUA.

NOTAS

[1] No original "capacity of total deniability". É uma das “expressões nebulosas” de que fala Steven Pinker em Do Que É Feito O Pensamento. A língua como janela para a mente humana (São Paulo: Companhia das Letras, 2008). Pode-se traduzir, tentativamente, como “capacidade de negabilidade total”. A expressão está relacionada ao conceito de “negabilidade plausível”: diz-se de acusação que não possa ser provada e cuja negação possa ser plausivelmente aceita. No jargão corrente das comunidades de espionagem, a expressão tem sido usada nos casos em que a ação é premeditada, para não deixar pistas ou rastros. Exemplos de casos em que a negabilidade (nem sempre plausível) pode vir a beneficiar criminosos são, por exemplo, meios de tortura como descargas elétricas e quase-afogamento, que não deixam marcas no corpo, o que impede que se comprove a tortura; chantagem, ameaças e intimidação de jornalistas e testemunhas também são meios com alta “capacidade de negabilidade”, dentre outros.
O livro de Pinker pode ser lido em: Do que é feito o Pensamento

[2] 12/7/2007. 18 civis foram mortos a tiros, entre os quais dois jornalistas que estavam a serviço da Agência Reuters. A operação foi filmada pela câmera instalada na mira de uma metralhadora do helicóptero Apache. O filme foi enviado por alguém que se identificou como “Crazyhorse 15” ao site WikiLeaks e inclui áudio de comentários trocados entre o helicóptero e soldados no solo. Pode ser visto, sob o título “Collateral Murder”.
Hoje, 21/9/2010, o jornal inglês Guardian traz matéria sobre o julgamento de dois dos empregados da Blackwater, acusados por aqueles assassinatos (“Cowboy Contractors: Armed and Dangerous”, Guardian (em inglês).

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